ALIMENTOS

Brasil desperdiça 128 kg por ano



21.09.2018 - 02:40

A Embrapa divulgou dados da pesquisa sobre hábitos de consumo e desperdício de alimentos apresentada durante o “Seminário Internacional União Europeia – Brasil: Perdas e desperdício de alimentos em cadeias agroalimentares: oportunidades para políticas públicas” em Brasília (DF). Segundo o levantamento, no Brasil, são desperdiçados 41,6 kg de comida por pessoa anualmente, sendo que cada família descarta 353 gramas, o que resulta num total de 128,8 kg de comida desperdiçada por ano.

Entre os alimentos mais descartados estão o arroz (22%), a carne bovina (20%), o feijão (16%) e o frango (15%), presentes nas refeições da maior parte da população. A dupla arroz e feijão, tão querida do dia-a-dia do brasileiro, representa aproximadamente 38% do montante de alimentos jogado fora no Brasil. Para tentar entender o motivo de tamanho desperdício de alimentos a pesquisa constatou fatores comportamentais, como a valorização da fartura em variadas etapas do consumo – desde a compra até o preparo do alimento - ; necessidade de comprar em grande quantidade para abastecer a despensa foi confirmada por 68% das pessoas, enquanto 52% afirmaram achar importante o excesso. Mais de 77% admitiram a preferência por ter sempre comida fresca à mesa, o que leva 56% delas a cozinhar em casa duas ou mais vezes por dia, contribuindo com a preservação da ideia de que “é sempre melhor sobrar do que faltar”.

O analista da Embrapa Gustavo Porpino, que comanda o projeto dos Diálogos Setoriais União Europeia – Brasil, afirma que os dados corroboram a heterogeneidade do mercado consumidor. “Renda e idade não explicam a diferença entre os que desperdiçam mais e os que desperdiçam menos alimentos, mas percebemos que as classes A e B têm maior tendência a desperdiçar hortaliças, até porque as classes de menor renda consomem pouco esse tipo de produto”, explica. Para 59% das pessoas não tem problema em haver alimentos demais na despensa, enquanto que 94% afirmaram ser importante combater o desperdício de comida - uma contradição também observada no estudo Mesa dos Brasileiros, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

“É preciso perceber que a complexidade da situação transcende o descarte dos alimentos que deixam de ser consumidos”, alertou o presidente da Embrapa, Maurício Lopes. “Trata-se do reflexo de um defeito no design do modelo econômico que se consolidou e que acaba tendo implicações em todas as demais dimensões, como a ambiental, que acaba despendendo energia para produzir um alimento que não é aproveitado”.

Para o embaixador da União Europeia no Brasil, João Gomes Cravinho, o esforço de pesquisadores brasileiros em trabalhar no tema tem o apoio da comunidade internacional. “Faz parte das nossas prioridades cooperar com o Brasil para enfrentar esse desafio, que, na verdade, é um desafio de todos”, disse, destacando o compromisso com o cumprimento das metas dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), que preveem a redução do desperdício em 50% até 2030.

A pesquisa foi liderada pelo Embrapa e contou com apoio da FGV. O levantamento foi dividido em três etapas : Na primeira, um grupo de pós-graduandos europeus do curso de mestrado em Gestão Internacional da FGV, vindos das Universidades de Bocconi (Itália), St Gallen (Suíça), Viena (Suíça) e Groningen (Holanda), entrevistaram 62 consumidores em supermercados, lojas de conveniência e feiras livres na cidade de São Paulo, durante cinco semanas. O objetivo foi avaliar hábitos de compra e consumo de alimentos dos brasileiros, a partir do olhar dos europeus. As análises das anotações de campo, fotos e questionários forneceram indicativos sobre o consumo alimentar das famílias.

Na segunda fase, 1.764 famílias responderam um questionário sobre hábitos de consumo de alimentos e desperdício. Destas, 638 participaram também de um diário alimentar com análise de fotos dos alimentos desperdiçados. Os consumidores enviaram fotos de seus hábitos alimentares durante até sete dias, via plataforma móvel de coleta de dados, informando sobre desperdício na preparação e no consumo de alimentos, principalmente no almoço e jantar. A metodologia foi adaptada de um estudo realizado na Holanda pela pesquisadora Erica van Herpen, da Universidade de Wageningen, com quem especialistas da Embrapa, MDS, WWF-Brasil e União Europeia se reuniram em missão internacional em dezembro de 2017.

Na terceira etapa, foi conduzida uma análise de big data (web scraping) para analisar como o tema desperdício de alimentos está alinhado a outros e quem está mais engajado com o debate. O monitoramento de mídias digitais identificou 6.595 conteúdos diretamente relacionados a desperdício de alimentos. Desse total, 75% eram postagens de instituições públicas ou privadas, o que aponta para a necessidade de engajar mais o cidadão. Segurança alimentar foi o tema mais fortemente relacionado a desperdício de alimentos